23 de jun de 2010

Definindo o indefinível

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sou várias interrogações:
uma definição.
feita de vírgulas:
sou interrupção.
criada com exclamações:
sou discrição, mansidão.
Em meio aos travessões:
sou silêncio.
Algumas aspas:
sou eu mesma.
Repleta de reticências:
sou um infinito.
um ponto final?
bem, não tenho um ponto final.


Gramática e vida


remanescentes.

10 de jun de 2010

Poderia ser resto.

Certas considerações a fazer:

Não, não sou um anjo.

Você pode estar começando muito bem o seu dia: os passarinhos melodiando a manhã ensolarada e de céu azul; um vento frio pra acalmar(algo bem raro nessa cidade quente); disposição para estudar em um dia de aulas relativamente chatas, enfim, começar bem o dia...
até o ônibus parar em um sinal e meus olhos verem uma mulher, quase senhora, agachada num calçada juntando terra (sim, terra!)do chão e comendo, sua primeira,e talvez a única, alimentação do dia.
Eu não consigo, eu fujo, fecho os olhos, olho pro chão,não consigo.
A visível indiferença do olhar não revela o imenso peso do coração, a total raiva do mundo, de mim, de tudo. Talvez seja a atitude mais covarde, mas não é indiferença.
Nas refeições feitas durante esse dia, me vem a cena de volta, eu a vejo ainda, pegando terra e mastigando com muita vontade, sem cara feia, tentando aliviar a fome de mais um dia na sua miserável, necessitada vida.
Pensando bem, foi um péssimo dia.


Poderia ser resto

2 de jun de 2010

entre aspas

"De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir."
(Caio F. Abreu; vulgo: O cara)




remanescentes