16 de nov. de 2010

Do avesso.

Do avesso.

Preciso do básico, do jeans e do chão.
Sobre o piso de todo dia desvendar aqueles que aqui estão.
Sobre a cama escutar o som que não me oferece muito, só som.
E nos cafés da manhã despertar o sono que não faz visitas a noite, que deixa os olhos fechados e as olheiras com um charme que não encanta.
E no começo perceber o fim, e no fim me espantar com a beleza do começo.
E nas tardes descansar por esforço nenhum, refletir em meio aos gritos do pensamento.
Vestir o jeans que marca o corpo pra esconder as manchas da pele, as manchas da falta de cor.
E alimentar minha fome pra que ela nunca me abandone, nunca se esqueça de mim, porque ela sempre volta, e assim meu corpo sabe que está vivo e que pelo menos alguém o quer com tanta intensidade, com tanta força. Sempre assídua e pontual, a fome por comida que faz de mim um ser animal; um ser que, pelo menos por um instante, não tem duvidas do que quer, não hesita em buscar o que necessita.
Preciso ter coragem pra ter fome de vida da mesma forma como tenho fome de comida.




remanescentes, somente.

29 de out. de 2010

Não Fumo



-
“So please, please, please, Let me, let me,
let me, Let me get what I want this time”
-The smiths



Sou sempre a cobaia de mim mesma,
e sem teste, sem busca, sou a transparência que não quero ver.
Em dias felizes o sorriso é mais verdadeiro, é fácil.
Em dias felizes o caminho é menos longo,
Em dias felizes sou natural.
Nesses dias felizes sou distante de mim mesma.

Em dias ruins sou mais eu,
Sem medo, sem farsa, sem esforço,
Com cinismo.
E é aí que percebo do que preciso, e não tenho.
E outros podem ter, conseguem com tanta facilidade,
Pra mim não, é mais difícil, o simples torna-se inalcançável, o perto ganha distancia.
O possível é nulo.

A vontade de resolver um problema causando outro,
como o cigarro que é a saída de muitos, a solução momentânea.
Uma estratégia inteligente, pouco saudável.
Mas não precisamos de saúde se a doença que mata está intrínseca na alma.
Não fumo, portanto quero uma saída.

Gosto da frase de uma amiga minha: “Quando os pés estão descalços, que sandálias se tira para respirar?”

Nem sei mais o se o certo é esperar ou se é melhor ir à luta com toda a pouca força e coragem que tenho. Se tantas palavras já foram gastas, só me resta jogar as preciosas ao vento? Mas são minhas palavras, são os meus pés, é a minha alma, o meu coração; é todo esse amor que grita por liberdade, pra poder finalmente cumprir o seu propósito, o de amar.

Não há a pessoa certa, a ideal.
Basta querer, e quando se quer, nada mais justo do que permitir a primeira vez.

14 de out. de 2010

.......

“Sim, inverno, estamos vivos"
(Paulo Leminski)


A cabeça que pensa, pensa, pensa e não chega a lugar algum.
Fica tudo na mesma, o lugar é o mesmo,
mas eu não consigo imobilizar essa vida que se esconde dentro de mim.
Ela se camufla, não se revela, porque assim fica tudo mais difícil,
E quanto mais difícil mais ela se torna vida. E viver não é fácil.
Não falo de obrigações e rotinas, de diversões e horários definidos, é só uma parte dessa ampla vida. Falo daquilo de dentro, do abstrato que se materializa em nosso corpo.
Aaah, como é difícil sentir a dor de quem se reconhece vivo.
Acho que minha cabeça nem fala mais de coisa com coisa, porque não há razão praquilo que não existe no cotidiano. Mas o cotidiano é tão pequeno e nosso ser é tão extenso.
O ser é o que você tem, ou não tem, mas de alguma forma, tem tentado alcançar. Ou não. Talvez seja mais fácil viver sem mistificar, sem teorizar, sem duvidar, sem questionar, sem pensar... Mas viver não é isso.
E o inverno concorda comigo.


Grande e pouco resto.

8 de out. de 2010

Eu, mas você.

Mas você não tem forma.
Eu canto porque gosto de me ouvir quando penso em você, sou diferente.
Mas você nunca foi em minha casa.
Eu penso que as flores poderiam falar, andar e cantar, porque elas te deixam mais belo.
Mas você não sabe ser feliz.
Eu busco você em todos os movimetos estranhos que me assustam quando estou distraída.
Mas você não gosta de sair pra passear.
Eu lembro de você quando o meu vizinho chega buzinando com o carro dele; nunca é você, você não sabe dirigir.
Mas você não se arrepia em filme romântico.
Eu leio as revistas e os jornais pensando que sua inteligência seria um estímulo pra minha estagnação mental.
Mas você nunca leu Dostoievski.
Eu gosto do seu sorriso. Ele é tão cheio de paz e é como aquela canção que nos embalou no nosso primeiro encontro imprevisto.
Mas você não sabe ressaltar seu brilho.
Eu lembro das suas palavras... “eu gosto de cachorro. Ca-cho-rro é amigo do homem....Ser homem é s-e-r estranho”...uma frase inteligente dita sem pensar que me fez não tirar os olhos de você.
Mas seus olhos verdes não são confortantes.
Eu sei que sua mão é macia. Você passou ela pela minha uma vez, sem vontade, e eu a senti, e ela é macia, do jeito que minha aspereza precisa.
Mas você gosta de Samba.
Eu gosto do seu andar, sem pressa, mas sempre anda como alguém que sabe o que quer, como alguém que já tem o destino traçado.
Mas sua vida é baseada em horóscopos.
Eu gosto da sua educação, me faz pensar que seu quarto é limpo, mas nunca fui na sua casa.
Mas você tem medo de quase tudo.
Eu quero beijar você.
Mas você não sabe cantar.


restinhos da madrugada

28 de set. de 2010

em trilhos

-

E num ritmo leve e bom a vida segue.
Segue em trilhos confusos, cheios de contornos,
Trilhos barulhentos.

E hoje mais do que nunca tenho a certeza de que
Posso ser mais do que sempre fui.
É uma afirmação que vai além das musicas
e dos livros, além das verdades alheias.
É a auto-afirmação e o entender
que a auto-aceitação é necessária.

Conversando com uma amiga que gosto tanto porque com ela me identifico e muito me inspira seu jeito, concluímos que a mudança é sim bem vinda. Necessário é descobrir o ‘eu’ que ainda se esconde dentro de nós, um “eu” tímido, talvez sempre reprimido pela nossa consciência inexperiente. E esse ‘eu’ pode não ser lá muito bom, pode não ser muito bem aceito pelos outros, mas é isso que somos, é o que tenho em mim, e não se vive fechando as portas pra si mesmo.

E cá estamos nós, seguindo a vida que começa todos os dias, e que nunca termina, segue seu ciclo que se inova. Há pacotes que se abrem e neles desvendamos que o melhor ou o pior de nós ainda está por vir.


E esse por vir não demora a chegar...
Já posso ver a próxima parada do trem.

21 de set. de 2010

Caminho meu.





Só.

E hoje foi um dia de ociosidade, dias que se repetem sempre que umas raras
dores visitam meu corpo fraco, e, com a sensibilidade em alta, a mente voa e descobre os caminhos de dentro que precisam ser explorados, caminhos quase nunca trafegáveis.

Há poucos problemas na estrada, umas pedras aqui e acolá, algumas barreiras às vezes,
pois estrada tranqüila eu sou.
Árvores nas laterais, muitas árvores, cores variadas, verde, amarelo, laranja.
Algumas cores falidas também decoram esse cenário interno e compartilham do espaço com meu eu “preto e branco”.

E são estradas novas, caminhos diferentes, estranhos; são os passos que preciso dar. E não há muito espaço, portanto, poucas pessoas podem me acompanhar.
Não há contra-mão, é pra frente que se anda, só uma direção.

E vou desenhando passos tímidos em mim, o medo de me descobrir é grande, porque as possibilidades são tantas que chegam a me assustar. A vida é incrível...e “tão maior que tudo”.

E eu preciso dos desvios, eles balançam o caminho mas são necessários, são como os passos difíceis das coreografias que dançava em uma época da vida: desafios vencidos pelo corpo e a beleza de um ritmo complicado, que geram uma contemplação visual rara. Os desvios são a descoberta de mim.
Apesar de permanecer a mesma, hoje sou mais aberta pro novo e para as diferenças.
Em busca de uma Ideologia.

Quando paro, cansada, sento em algum banco pensando se pode surgir bem ao longe alguém, alguém pra oferecer uma carona, algum “eu” perdido sem mapa dentro de mim.
Então continuaremos o caminho; mostrarei, cansada, pra esse ‘’eu’’, que a viagem pode ser bem mais bela sem um caminho já traçado, sem mapa, pois os espaços geográficos já delimitados em mim não surpreendem, são tranqüilos comuns. Mas ainda há terra inexplorada a me (ou nos) esperar.

E descubro que isso eu sou: uma estrada a percorrer, uma cidade inabitada, uns lagos e algumas árvores pra enfeitar e muita neblina pra confundir.
Um ser bonito que há em mim,
em dias de dores.


Rb 14/09/2010.



Remanescentes bonitos

11 de set. de 2010

''Livre como um Deus''

-
Meus olhos brilham pretos
Meus lábios sem palavras
Meus gestos com timidez
Meus dedos mal pintados
Meu rosto sem segredos


Sorrindo leite em lágrimas



parafraseando o Nandoreis.


e os restos me completam